De tosador para tosador

Clayton Muniz

Clayton começou como atendente, lavador de canil e ajudante geral numa clínica veterinária em Americana, interior de São Paulo.

Sempre quis trabalhar com animais, especialmente cães. Pensava em ser veterinário, biólogo, nem imaginava que existia esse mundo onde se pagava para ter seu cão arrumado e bonito, pois imaginava que os próprios donos dos pets faziam esse trabalho. "Se eu não tivesse me tornado um tosador, talvez fosse qualquer coisa ligada à arte... sim, está no meu DNA!", afirma com veemência.

Aos 18 anos de idade, quando trabalhava em uma clínica , decidiu investir seu tempo e esforço nessa área de banho e tosa, quando tinha uma boa noção de como funcionava o setor, mas não tinha oportunidade de fazer o trabalho por inteiro, já que só ajudava o tosador oficial do local. Quando o tosador resolveu sair, ficou no lugar dele sem saber como segurar uma tesoura, máquina, etc., mas com uma coisa em mente: "Tem que ser agora!" Como Clayton já lia muito sobre cinófila e animais em geral, foi mais fácil assimilar as coisas. "Fiz muitas coisas erradas, mas que considerava corretas e fiz coisas muito boas que também foram consideradas erradas!", diz ele.

A família nunca foi contra seu trabalho, mas alguns amigos não entendiam muito bem. Achavam que ele estava louco por querer lavar cachorro, ficar sujo o dia inteiro, levar mordida, etc. O esteticista fala que não se preocupava com essas opiniões, nunca se escondeu, nem fez com que a sua profissão fosse aceita por eles. Com o tempo aceitaram e passaram a admirá-la também. Alguns primos sempre exclamavam para seu pai: "Nossa, o Clayton é tão inteligente, poderia trabalhar em qualquer empresa multinacional, por que ele quer fazer esse trabalho?" Nosso entrevistado informa que dava muita risada, pois a profissão que escolheu no segmento de banho e tosa, na visão de algumas pessoas, "tem uma ligação errônea com subemprego e com pessoas burras que não se encaixaram no mercado."

"Quando eu comecei tudo era diferente, muito difícil. Não existiam equipamentos, produtos, tudo era precário e demorado. Mas, com muita dedicação e esforço, fiz o que podia e até o que eu não podia para melhorar meu trabalho. Comprava equipamentos por conta própria, pois o dono da pet shop não queria investir em nada. Participava de cursos demonstrativos porque não tive oportunidade de fazer um curso básico", conta. Clayton fala que muitas vezes pensou em desistir de tudo porque não tinha suporte para continuar, não tinha dinheiro para investir em melhores cursos, os preços cobrados eram baixos demais, tudo era complicado de mudar, mas sempre que pensava em desistir, acontecia algo que o impedia: um cliente novo que aparecia e o elogiava, um cachorro que ele imaginava viver sem vê-lo toda semana, coisas simples, mas que o prendiam nesta profissão.

Segundo o esteticista canino, seu pior momento na carreira foi quando foi atacado por um Husk Siberiano que tinha acabado de dar banho. O motorista deixou a guia escapar e Clayton agarrou o cão pelo pescoço para ele não fugir para a rua. O cão mordeu sua mão, seu braço, tudo... Por este motivo, ficou sem trabalhar um tempão. Segundo ele, seus melhores momentos foram tantos, que nem dá para enumerá-los. "Não consigo descrever a minha emoção quando ganhei o Inter Groom na categoria Poodle e depois, para finalizar, ganhei o Best in Show! Foi um marco na minha carreira, um divisor de águas, pois nunca um brasileiro conseguiu esse feito, e nunca imaginei consegui-lo tão rápido!", emociona-se. "Também tive e tenho muita sorte em encontrar pessoas maravilhosas pelo meu caminho", enfatiza.

Clayton conseguiu algumas medalhas importantes no Brasil e no exterior. Trabalhou com muito amor e dedicação, mas tem consciência que ainda está no começo, precisa melhorar muito, aprender muita coisa que ainda não domina, mas, como profissional, sente que está no caminho correto, que fez boas escolhas, que não perdeu seu tempo nem dinheiro, sente-se realizado com o que conquistou, mas ansioso por muito mais!

"Os maiores desafios nesta profissão são lidar com clientes, saber exatamente o que eles querem e o que não querem. Os cães são fáceis de lidar, mas os donos... tem que ter jogo de cintura para driblar as situações difíceis, como um funcionário que resolveu não aparecer no dia mais lotado de trabalho...", salienta Muniz.

Para ele, conseguir bons ajudantes é uma tarefa muito difícil nessa área. Deixar os cães mais bonitos e cheirosos é o básico, mas mantê-los voltando sempre requer muito esforço, pois nem sempre é possível agradar e acertar o que foi pedido. Sempre aparecem reclamações e críticas. Se o profissional busca informação e aprimoramento, tudo isso fica mais fácil, pois haverá mais confiança em si próprio e não deixará a situação piorar.

Uma das coisas mais interessantes nessa área, de acordo com o profissional, é que nunca há monotonia, cada dia é diferente do outro, sempre se aprende coisas novas e se diverte também, pois sempre há espaço para uma piada, um comentário engraçado, enfim, a diversão sempre está presente!

Na visão de Clayton, o mercado vem crescendo muito, abrem-se lojas, salões de tosa, como nunca se viu antes e, com isso, vem uma desordenada evolução profissional. O mercado precisa de profissionais, pois algumas pessoas sem conhecimento na área, por puro oportunismo, se aventuram e trazem com elas o que menos precisamos: profissionais sem talento e sem paixão pelo que fazem. Isso prejudica as pessoas que trabalham dentro dos critérios básicos de sobrevivência comercial.

Até esses profissionais serem engolidos e expulsos da área, na opinião de Clayton, ele já queimaram uma parcela muito grande de bons profissionais. "Eu vejo uma profissionalização maior, as pessoas estão vendo que o caminho é a informação, sem ela você fica para trás muito rápido. As empresas estão cada vez mais empenhadas em produzir materiais que nos favoreçam, o que não acontecia há 20 anos. Hoje elas pensam no tosador, não no dono da loja. Somos os principais personagens dessa história, sem nossa aprovação nenhum produto de banho e tosa vai adiante."

O profissional de banho e tosa acha que um bom profissional deve ser um obcecado por aprender, deve estar sempre pronto ao novo, não perder nenhum curso que apareça pela frente e, principalmente, buscar informações em outras áreas, como arte, música, arquitetura, pois tudo influencia nesse trabalho como um todo.

Quem tem informação tem mais poder. "Abrir os horizontes, buscar coisas diferentes faz um profissional como nós mais interessantes, mais capazes de desenvolver trabalhos bonitos e não medíocres", conclui.